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quarta-feira, abril 29, 2009

A Moça Tecelã

A Moça Tecelã 
de Marina Colasanti 
 
Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.  Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.  Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.  Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.  Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.  Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro, e batendo os grandes pentes do tear para a frente e para trás, a moça passava seus dias.  Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.  Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.  Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao lado. 
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.  Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida.  Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.  E feliz foi, por algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em mais nada pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar. - Uma casa melhor é necessária, - disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse a mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.  Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. - Por que ter casa, se podemos ter palácio? –perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates de prata.  Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços.  A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.  Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos o marido escolheu para ela e seu tear, o mais alto quarto da mais alta torre.  - É para que ninguém saiba do tapete, - disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu:
- Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!  Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.  E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo.  Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.  Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.  A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou, e espantado olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.  Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.
 

Eu sei, mas não devia

Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. 
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos 
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor. 

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. 
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. 
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz. 
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. 

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. 
A tomar café correndo porque está atrasado. 
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem. 
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. 
A sair do trabalho porque já é noite. 
A cochilar no ônibus porque está cansado. 
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. 

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. 
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos. 
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz, 
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. 

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. 
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. 
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. 
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. 

E a ganhar menos do que precisa. 
E a fazer filas para pagar. 
E a pagar mais do que as coisas valem. 
E a saber que cada vez pagará mais. 
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra. 

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes. 
A abrir as revistas e a ver anúncios. 
A ligar a televisão e a ver comerciais. 
A ir ao cinema e engolir publicidade. 
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. 
A gente se acostuma à poluição. 

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. 
A luz artificial de ligeiro tremor. 
Ao choque que os olhos levam na luz natural. 
Às bactérias da água potável. 
A contaminação da água do mar. 
A lenta morte dos rios. 

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, 
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. 
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. 

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, 
um ressentimento ali, uma revolta acolá. 
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. 
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. 

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. 
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo 
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. 

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. 
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se 
da faca e da baioneta, para poupar o peito. 
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, 
de tanto acostumar, se perde de si mesma. 

As regras nem sempre são obedecidas

regra três

vinicius de moraes

Composição: Vinicius de Moraes / Toquinho

Tantas você fez que ela cansou 
Porque você, rapaz
Abusou da regra três 
Onde menos vale mais

Da primeira vez ela chorou 
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes 
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança 
Porque o perdão também cansa de perdoar

Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai. 
Mas deixe a lâmpada acesa 
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto 
Porque você pode estar certo que vai chorar

Com licença poética

Com licença poética
Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Quando descobrimos uma música

coração de papel
sérgio reis
Composição: Sérgio Reis

Se você pensa
Que meu coração é de papel
Não vá pensando, pois não é
Ele é igualzinho ao seu
E sofre como eu
Por que fazer chorar assim
A quem lhe ama

Se você pensa
Em fazer chorar a quem lhe quer
A quem só pensa em você
Um dia sentirá
Que amar é bom demais
Não jogue amor ao léu
Meu coração que não é de papel

Por que fazer chorar
Por que fazer sofrer
Um coração que só lhe quer
O amor é lindo eu sei
E todo eu lhe dei
Você não quis, jogou ao léu
Meu coração que não é de papel

segunda-feira, abril 27, 2009

“Todo carnaval tem seu fim”

No carnaval de 2009 Ana Maria, lembram-se dela? Aquela que viveu uma história de carnaval lembrou? Pois é... a doce Iemanjá escolheu alguém para beijar no carnaval e se apaixonou. Durante dois meses viveu uma história de carnaval (pouco tempo não é?).

Ana Maria tentou compreendê-lo, aceitar seu comportamento estranho, aceitar sua excessiva sensibilidade.... Porém diante de tantas idas e vindas, de tantos altos e baixos a doce Iemanjá decidiu terminar com a sua história de carnaval. Eu pensei que a Ana Maria fosse amar novamente, ser feliz e compartilhar seus momentos com alguém inteligente, maduro e tranqüilo. Doce ilusão... o seu escolhido é instável emocionalmente e diversas vezes a deixava só! A Ana Maria logo pensou: Não posso permitir viver novamente uma história de privações, lamentações e solidão.

Ufa! O lado bom dessa história é que podemos perceber que a Ana Maria aprendeu com os acontecimentos do passado e, ao diagnosticar a situação presente, a doce Iemanjá rompeu de imediato, não se permitindo a permanecer em uma condição desconfortável por um longo período. Isso significa EVOLUÇÃO.

Respeitando-se, a Ana Maria segue convicta de que seu “coração não é de papel” e, espera em breve recuperar-se do fim de mais carnaval sem, com isso, perder-se, pois o bem maior ela já conseguiu: hoje se ama mais que a qualquer coisa.

Camila Braga

27/04/2008

Uma história de carnaval

“Já é carnaval cidade...”  e a cidade está toda acordada em meio a tantas músicas com letras de conteúdo vazio e danças sensuais que mais parecem (hum... será que parecem mesmo???) deixa prá lá! O nível de promiscuidade é altíssimo nessa época do ano. Ouvimos (ouvimos? Eu também? Hum... menos eeeeuuu.... é claro rsrs....) todos os nossos ímpetos sexuais e agressivos, e pior, não refletimos e anestesiamos a consciência com as bebidas alcoólicas. 

Nesse carnaval conheci Ana Maria, não aquela do biquíni de bolinhas amarelinhas (xiiii acabei de denunciar minha idade), mas uma garota de verdade.

Bem, Ana Maria me falou que gosta muito de festas, brincar e se divertir. Ama os amigos e, sobretudo ama viver. Mas, Ana Maria sempre soube agir comedidamente em muitas situações e por isso sempre foi a mais centrada da turma....o exemplo.

Nesse carnaval Ana Maria enlouqueceu rsrs... não no sentido patológico, mas Ana fez coisas diferentes (Bem que ela havia prometido na virada do ano que iria mudar ... mas todos não prometem a mesma coisa? Parece que a Ana cumpriu!!) de fato, Ana Maria confessou que desde Janeiro vem fazendo diferente e pensando diferente...

Como toda mulher comedida, centrada e confiante de seus ideais, Ana Maria estudou, formou-se e trabalha... é independente! (independente? Hum... você é independente? Eu ainda não sou, mas a Ana Maria é!).

Na primeira festa de carnaval de 2009 Ana Maria tinha bebido muito e me falou que naquele dia ela iria escolher uma boca para beijar afinal... é carnaval e aqui as pessoas fazem isso Não é mesmo? (eu que não faço rsrs...)

Pois é... Ana Maria realmente está fazendo diferente. Porém a doce Iemanjá não imaginava que o beijo era mágico e que viciava rsrsr... agora ela quer sempre o mesmo beijo.... é burra essa Ana Maria... seu primeiro ano solteira em Salvador e se apaixona no primeiro beijo. Você pode não acreditar, mas Ana Maria quer apenas o beijo do seu escolhido. É porque nem contei que a Ana Maria escolheu aquele que ia beijar e agora? Quer viver uma história de carnaval!

Camila Braga

24/02/2009

Quando a gente se apaixona...

Quando a gente se apaixona a vida fica mais leve, o coração bate mais forte, os olhos brilham em um tom indescritível. As cores do mundo ficam mais vivas e intensas e a respiração parece faltar em alguns momentos. Além dessas características, quando a paixão é correspondida os pés nem pisam no chão...

Porém, quando a paixão não é correspondida, sentimos uma dor no fundo do peito e uma leve irritação no dia a dia.

Paixão é isso, não acontece com hora marcada, nem escolhemos a quem nos apaixonar.

E o amor? Acabei de descobrir que existem vários tipos de amores.

O sociólogo John Alan Lee, pesquisou em 1973, em textos filosóficos antigos, seis arquétipos do amor, são eles:

EROS: o amor romântico – onde predomina a paixão, a atração sexual. Reconhecemos em nosso parceiro a completude de nossas sensações.

LUDUS: o amor lúdico – esse amor é aventureiro, os seus adeptos não possuem parceiros fixos, e então, vivem sempre a procura de novas conquistas.

STORGE: o amor amigável – esse amor transmite uma sensação de cooperação, normalmente, surge de uma amizade.

MANIA: o amor ciumento – esse amor causa sintomas terríveis ao seu adepto; sensação de posse e falta de concentração.

PRAGMA: o amor pragmático – esse amor usa, ou pelo menos tenta usar, a razão.

ÁGAPE: o amor altruísta – esse amor preza em doar-se e está sempre preocupado no bem estar do companheiro, ou seja, um amor burro e bem feminino!

Então os arquétipos Eros, Ludus, Storge, Mania, Pragma e Ágape são a maneira didática de classificar as nossas neuroses amorosas. Penso que poderíamos transitar por eles de tempo em tempos, mas alguns especialistas dizem que trazemos em nossos genes a característica de um desses arquétipos.

Quanta injustiça! Não temos a chance de escolher a quem amar e nem como amar.

Eu já sei qual o meu arquétipo, e você, sabe qual é o seu?

Camila Braga 13/04/2009

Coisas engraçadas em que acreditamos

Pensamentos...

Nem sempre o que eu quero acontece, mas SEMPRE o que eu penso acontece. Certa vez eu li, em algum lugar, que deveríamos cuidar para que os pensamentos não virem palavras e, por sua vez, as palavras não virem ações. Certa da força dessa afirmação surge, então, a necessidade de passar os dias a controlar-me. Coisa chata passar horas controlando os pensamentos e, pior ainda, controlar as palavras. As vezes penso que elas fluem por vontade própria, sem grandes intenções. Na certa são os pensamentos tentando manipular... então digo: Páaaaaaraaaaa... assim fico louca.

 

Gostar...

Coisa engraçada é gostar de alguém. Olho, observo, analiso e, então digo: vou gostar de você! É assim mesmo que acontece?

 

Amar...

Biblicamente o amor é descrito como um sentimento incondicional. Penso que é humanamente impossível não condicionar os sentimentos, as ações e assim, não condicionar a permanência de alguém em nossas vidas. Querer alguém TODOS querem, mas como? De que jeito?

A humanidade passa por diversas crises atualmente; a crise do amor, ou melhor, da falta de amor, certamente tem tornado a vida mais complicada e mais difícil de conduzir.

 

Pensar...Gostar... Amar... Sensações humanas incríveis     

Pensamentos de uma noite de verão

Um dia pensei: eu o amo, mas não estou feliz!

É mesmo possivel? Se amamos e temos a pessoa amada ao nosso lado? Isso parece incoerente. Após muitas noites de insônia logo conclui: não sou feliz porque o outro não está feliz ao meu lado. Assim tomei uma rasteira da vida. Percebi que muitas vezes sonhamos sozinhos, amamos sozinhos e estamos sozinhos, mesmo estando acompanhados...

Camila Braga em 12/02/2009